3.10.05

Carta de desamor I


Pensei muito nos últimos dias sobre tudo o que tem acontecido, e por muito tempo hesitei em escrever esta carta, mas hoje ela tornou-se urgente. Ressalto antes de começar, apenas que eu sei que cartas não são cartas se não escritas à mão, mas eu não quis que a minha caligrafia ruim fosse mais um empecilho para que finalmente você me entendesse. Sei bem que isto não é tudo, mas é um bom começo.
Há tempos que eu devia Ter dito todas estas coisas, mas eu não pude, era cedo demais... Aliás, tudo foi cedo demais. As coisas aconteceram muito rápido, e foram se atropelando, e nisso você há de convir comigo. Não foi ontem que eu te conheci? Não, ontem certamente não foi, mas isso faz quanto tempo? Quatro, cinco semanas? Não é cedo para se falar de tantas coisas? Me fiz esta pergunta inúmeras vezes... E por isso é que eu me senti sufocada ( sim é exatamente esta a palavra) naquela Terça-feira, a duas semanas, quando eu estava saindo para fazer a minha prova. Foi porque eu não esperava a verdade assim, tão de repente, tão escancarada. Eu pensei que eu teria muito mais tempo... Eu sempre acredito que tenho todo o tempo do mundo... Afinal de contas, mesmo que eu soubesse, ou nem isso, mesmo que eu imaginasse que você estava sentindo algo por mim, ainda assim, eu poderia simplesmente fingir que não sabia de coisa alguma, e nós continuaríamos amigos, comeríamos pipoca (adoro pipoca- vício), falaríamos de coisas sérias, mas também de frivolidades, e hoje tudo estaria bem. Você estaria mais feliz e eu me sentindo menos culpada. Até que um dia eu esqueceria que em algum momento da minha vida pensei que você gostava de mim, e até mesmo você esqueceria... Sim, porque das paixões nós esquecemos. Especialmente das platônicas. Paixão? Apenas paixão? Exatamente. Eu não poderia deixar de responder... A sua mensagem lembra? Você não me ama... Não sei se algum dia poderá amar, mas não me ama. A gente não ama a quem não conhece, não se ama quem nos machuca, quem não conseguimos entender. Não se ama assim tão rápido, tão logo... Mais uma vez o tempo.
Aprendi poucas coisas sobre amor na minha vida. Aprendi mais sobre o que não é amor. Isso eu sei reconhecer a longas distâncias. Isso fez-me ponderada. Fez-me acreditar na força dos ponteiros que passam incessantemente pelo relógio. Repito: não é ruim que o tempo passe. O que há de verdadeiro sempre permanece. E você não imagina a consciência que eu tinha quando lhe disse isso pela primeira vez. Você não tem idéia de quantas coisas eu deixei para trás quando vim para essa cidade... Coisas em que eu acreditava. E hoje, não sinto a menor falta daquelas que não permaneceram presentes, hoje eu sei que eram ilusões. Não mais que isso.
Eu sou uma ilusão para você. Não mais que uma ilusão. Doce? Atroz? Feroz? Pungente que seja... Tanto faz. Utopia é sempre utopia. Você ainda acredita que um dia tudo pode ser para sempre?
Outro dia desses, eu te enviei uma mensagem. Você estava triste, era uma Sexta-feira, eu disse: "queria poder fazer algo para te deixar mais feliz, mas não posso". Depois deste dia repeti este não posso milhares de vezes, algumas delas para você, muitas outras para eu mesma. Agora eu o explico: sou uma mulher livre, não uso nenhuma aliança, não tenho nenhum papel assinado (e talvez isso eu nunca tenha), não tenho compromisso com ninguém. Sou confusa demais para assumir compromissos. Troque a palavra "confusa" por "volúvel" se quiser, é até um adjetivo melhor para a minha pessoa. Mas ainda assim de coração preso, embevecido, atrelado a uma única pessoa. Meu compromisso é apenas comigo. Posso ser possuída por qualquer um e no máximo eu estaria traindo a mim. Ao que eu sinto. É isso que eu não posso.
Se hoje eu não estou com esta pessoa (meu companheiro, meu amigo e meu amante), é porque nos fizeram como o sol e a lua e existe um universo inteiro nos separando. E também porque a lua é uma mulher, e mulheres têm fases. E hoje eu vivo uma fase em que eu procuro coisas em mim e não nos outros. Descobri que eu preciso antes ser de mim mesma para depois ser de qualquer outra pessoa.
Na sua carta você falou de Sonhos. Irônico porque a alguns dias eu tive realmente um sonho. E não era você quem estava nele. Não foi você quem eu quis naquela noite. Irônico porque naquele dia, quando acordei vi a sua mensagem, você dizia que me amava. Não foi isso? E estas coisas todas foram se somando e aumentando a minha culpa. Aquele "se sentir de plástico" tem muito de culpa. Tem um pouco de indecisão também... De uma hora para a outra eu não soube mais como agir na sua presença. Eu não sabia como te tratar. Não conseguia falar com você como eu falo com os meus amigos (aqueles que eu mais gosto), e era apenas isso que eu queria.
Nos dias em que conversamos estas coisas todas eu me senti ainda pior. Você estava certo, eu estive extremamente tensa. Não conseguia formular uma única frase que pudesse parecer coerente, e quando eu começava a falar, vinha você com as suas perguntas, e mais eu travava. Você nunca percebeu que eu odeio perguntas? Que eu poderia falar tudo o que você precisava ouvir, se você não fizesse pergunta alguma? Desde criança, sempre fui assim. Bloquiei minha língua para os momentos em que eu mais preciso dela. As palavras simplesmente não saíam. A escrita em contraponto fluía facilmente nestes momentos em que a voz falhava. Palavras... Porque apelar sempre a elas? São todas imprecisas, todas inúteis, todas impróprias. Nenhuma delas foi capaz de dizer aquilo que eu queria. Nunca. E a presença constante. Você nem ao menos percebeu que havia outra pessoa no meio da nossa conversa? Alguém que calava a minha boca e me puxava para longe dali o tempo todo?
Eu gosto muito de você, mas não assim, não foi isso que eu quis. Eu acredito muito em amizade, não como as comuns, mas como as verdadeiras, que são poucas, mas por si só já valem á pena. Então seja meu amigo, se puder.... Vou estar sempre aqui. Mas é só isso que eu posso oferecer... Apenas e tudo isso.

Espero sinceramente que isso ponha por terra todas as suas dúvidas.

1 Comment:

Fernanda said...

"Carta de desamor" é o primeiro texto de uma série. Escrevi o segundo aqui, mas acabei perdendo-o, nem sei como. Houve uma história, houve um rapaz que inventou uma paixão por mim e me escreveu uma carta declaração. Eu escrevi esta carta a ele e agora ouso publicá-la.