30.11.05

re- início

"Acabo de ler teus textos.
Você pode até não entender isto agora, mas você é incrivelmente parecida comigo.
Teu texto me parece meu. Tuas dúvidas, tua subjetividade, tuas reticências...
É tudo meu!
Confesse!
Você roubou isso tudo de mim...
Sério... É tudo tão meu, que só não digo que fui eu que escrevi isso tudo, porque o pouco que eu sei sobre física me diz que é impossível que eu seja você ( por mais que eu acredite nesta hipótese, mas isso já seria o que as pessoas tem chamado de maluquice, e eu tenho tentado provar que não sou maluca)."

Ora, e não foi este o início de tudo?




20.11.05

Aos Amigos Comunistas

Texto do ano 2000... É bom ter cadernos de Anotações, a gente encontra cada coisa...


Um dia desses eu estava tomando banho, mais precisamente ensaboando a barriga, quando subtamente me ocorreu que eu nunca tinha visto uma soja. Nunca! Nem ao vivo, nem pela televisão, nunca! Não faço a menor idéia de que cor, tamanho ou formato possa ter uma soja.

Enxaguei a barriga e após instantes de reflexão percebi que apesar de nuncar termos sido apresentadas eu e a soja somos muito intimas. Sabe o shoyu, aquele molho japonês que não tem gosto de nada ? É, aquele de cor escura! Pois é, tem aqui em casa. A soja está presente também no tofu, aquele queijo que por coincidencia também não tem gosto de nada. Pesquisando em minha mente lembrei também de um óleo de soja, de leite de soja e... Pasmem! Carne de soja! Este último me deixou intrigada, seria então a soja um animal?

Que mistério é este que há por trás dessa coisa que denominam soja? Que pode originar um molho preto, um queijo branco, um óleo amarelo e uma carne marrom?

Só há uma justificativa para tal indignação: a soja é uma farsa! Não existe! Eu sei que a verdade pode ser dura, mas tem que ser dita: a soja não passa de uma mentira que os capitalistas inventaram para empurrar tais produtos artificiais como se fossem naturais! Vamos organizar uma passeata, ou melhor, uma revolução! Isso mesmo! Faça cartazes e grite junto comigo: "ABAIXO A SOJA!".

Você duvida? Então me diga como é possivel fazer leite, carne queijo e óleo a partir de um grão?

Já posso prever o nosso trágico futuro... Eu sei que é triste, mas todos querem que acreditemos que a soja esxiste. Isto porque todos sabem que a natureza está acabando e em breve, a agua acabará e nós beberemos leite de soja, os bichos morrerão e nós comeremos carne de soja. Enfim, tudo será soja!

Todos verão que tudo será feito de soja! E se quer saber, dane-se o petróleo, porque o principal combustível será o óleo de soja!

Você ainda duvida? Então me responda, você já viu uma soja?

1.11.05

Máscaras



No princípio, era como um sonho, e depois, na medida em que se sonhava, mergulhado naquele "mundo", foi-se afastando aquilo a que chamam realidade.

Quando nos damos conta, a "verdade" é a realidade que se está vivendo. É a que conta.

Todos nós resistimos a acordar das ilusões.

Veste-se o "duplo", a máscara então. Por um lado, uma forma de ocultar-se na multidão, e assim, livrar-se das obrigações, repressões e impedimentos da vida, e por outro lado, esconder-se das dores, da sua própria verdade.

Tolice: não saber se libertar dos papéis, das amarras sociais.

A psicanálise se ocupa de quê? De curar ilusões?

Ilusão: engano dos sentidos ou da mente que faz com que se tome uma coisa por outra, que se interprete erroneamente um fato ou uma sensação. Falsa aparencia. Ilusão auditiva. Sonho, devaneio, quimera. Coisa efêmera, passageira. Logro, burla, engano. Invenção. Fantasia. Miragem.

Qual a sua verdadeira face? Anda! Me diz, eu não conto a ninguém, juro.

Transeunstes.. Intermináveis fotogramas de imagens corriqueiras e patéticas. Ares e olhares exultantes e medíocres na sua pose artificial de presença... Simulacros de gente! Todos Vocês!

Retire a sua máscara do cotidiano,
Deixe eu ver você,
Deixe!

Vivamos Todos, o grande Teatro da Vida!
( quem é você que lê minhas anotações inquietas? Quem é você? Revele-se a mim e só então eu posso me revelar a você)

E quando a sua máscara, persona, sobrevive a você? Você sabe? Não, não sabe.. Mas às vezes, a personagem mata a pessoa. É que às vezes, a personagem é tão mais interessante que a pessoa... E tirar a máscara é expor-se ao vazio de ser o que se é.

Máscaras...

Máscara: 1. Objeto de cartão, pano ou madeira, que representa uma cara, ou parte dela, e destinada para por no rosto e disfarçar a pessoa que o põe. 2. Para resguardo do rosto, na guerra ou na esgrima; 3. Molde que se tira do rosto dos cadáveres; 4. Pano fino com que as mulheres escondiam o rosto para ocultá-lo ou proteger a cútis; 5.Dispositivo metálico utilizado para a proteção de operários; 6. Atadura especial aplicada ao rosto como curativo;7. Camada de cosmético que se aplica à pele para o tratamento tópico; 8. Fisionomia, rosto, face; 9. Aparência enganadora, disfarce; 10. Reprodução estilizada de rosto humano ou animal, esculpida em barro, madeira, cortiça, papelão e guarnecida de pêlos, cores, etc. , com que os atores cobrem o rosto, ou parte dele, caracterizando seus personagens; 11. Expressão fisionômica do ator, a qual reflete o estado emocional da personagem que ele interpreta. (...)

A máscara... A máscara que esconde, que protege, que revela, que se confunde com a própria face...
Lembro agora que as crianças de minha família, todas tinham medo de máscaras. Houve um dia, em que João Vítor, então com dois anos de idade, entrou em uma loja de brinquedos e de forma alguma queria sair de lá. Pegamos máscaras, as mais horrorosas que encontramos e vestimos. Ele na mesma hora, correu, para fora da loja. Depois contava que a máscara havia "grudado" , aderido à minha face. Percebe? O seu medo não era da máscara em si, mas de que em um dado momento, eu não pudesse mais me separar da máscara. Ingenuidade? Talvez não...


Olhe para ela, a moça logo ali à sua frente... O que impede de que você, ao olhá-la veja toda a verdade que se encontra nela? A roupa que ela veste? A maquiagem que ela usa? A forma com que ela anda? Como poderia, ela, nua, ainda assim, dissimular? Despida até mesmo do olhar que julga, do olhar do outro, teoricamente, só então ela poderia deixar-se só, consigo mesma.
Pode ser que Platão não estivesse se enganado, pode ser que vivamos no eterno mundo das aparências...


"Pele negra, máscaras brancas" e o colonizado quer, cada vez mais, se parecer com o colonizador para deixar de ser, ainda que apenas aparentemente, um dominado, ou seja, afirma sua identidade, frente a ficção do modelo, e recusa a armadilha das mitologias... Usar a máscara para se afirmar em relação ao outro? A máscara formadora de identidade.

Fingir, falsear, mentir. Mentir para o outro? Ou mentir para si mesmo? " A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer"

E eu? Que máscaras eu uso? Sou como sou vista pelos outros? Sou como sou vista por mim? Quantos são os personagens represento?

É muito mais fácil falar da tal moça logo ali à frente. Àquela, refletida no espelho, como se ela não fosse minha imagem. A simulação da simulação. A máscara aderida à tez. A minha própria pele. A minha própria aparência. Contrária à realidade?

Identidade: o que faz com que eu seja exatamente o que sou? E não a outra, a cópia, a reprodução grosseira que está presa no espelho?