26.12.05

As musas


Todo artista precisa de algo que o inspire. Algo que o faça produzir, que o instigue, que o provoque. Um poeta sem inspiração não é um poeta.

Eis que existiu um certo poeta. E ele, como tantos outros, apenas descobriu-se como tal a partir do momento em que encontrou algo capaz de lhe incutir esta ou aquela idéia, este ou aquele pensamento. Entre os poetas é muito comum eleger uma musa inspiradora, àquela a quem eles irão dedicar ao menos parte de suas produções. E com este jovem poeta não foi diferente.

Ele bem que tentou escolher musas reais, algumas de tantas mulheres que preenchiam seu cotidiano, mas elas eram para ele reais de mais, comuns demais e portanto, eram incapases de fornecer a tal inspiração. O poeta também percebeu que mulheres simplesmente inventadas por ele e existentes apenas num plano irreal eram frágeis demais para lhe fornecer aquilo de que ele precisava.

Foi então que o jovem passou a selecionar algumas mulheres reais para posteriormente reinventá-las. Em sua mente, o escritor as moldava, as recriava. Fazia isso minunciosamente, ressaltava suas qualidades e ofuscava seus defeitos e logo ele possuia um grupo de nove mulheres perfeitas: as suas musas.

Quando uma das musas não correspondia às suas espectativas ele as afastava do grupo e logo colocava outra musa em seu lugar. Como ele escrevia sobre as coisas da vida e como não há nada mais vivo que o amor, frequentemente ele se apaixonava pelas musas. Cada uma delas possuía seu lugar num outro mundo,muito diferente do nosso. Um mundo perfeito, onde as cores eram mais vivas, os perfumes mais valiosos, todos eram mais belos e onde a vida era fácil e ao mesmo tempo, feliz. O próprio poeta tinha se encarregado de desenhar cada pedacinho daquele mundo e ele não cansava de repetir, com orgulho: "este é o meu mundo, esta é a minha vida!". Para ele pouco importava se tudo era apenas sonho, neste soho ele tinha um mundo só seu e neste sonho ele era feliz, então ele nem pensava em acordar.

No alto de uma colina daquele mundo inventado, morava uma musa triste. Fazia já muito tempo que ela tinha sido criada e aos poucos ela foi tornando-se amarga. O poeta costumava visitá-la e mostrar a ela como era magnífico aquele mundo. Sentava ao lado dela no ponto mais alto da colina e dizia que tudo aquilo seria dela se ela quisesse. A musa, no entanto, questionava o valor de ter aquele mundo falso. Se ele oferecesse metade do mundo a qualquer uma das outras musas elas já lhe seriam eternamente gratas e pos isso ele nunca entendeu as recusas daquela musa de grandes questionamentos.

Por vezes, Ester (este era o nome da musa que questionava) sentia raiva de seu criador. Sentia-se presa naquele mundo mágico onde era apenas personagem. Ela queria muito mais do que isso, ela queria também ser autora, criadora de sua história.

O escritor amava a cada uma de suas musas com sinceridade e devoção e elas o amavam com a esperança de que um dia poderiam ser únicas naquele mundo. À Ester, ele costumava dizer que era a ela que ele mais amava,mas ela acreditava que ele dizia isto também às outras musas e isto é que lhe tornou amarga, fazendo-a refugiar -se na colina, abdicando-se da companhia das outras musas.

Certo dia, uma das musas resolveu visitar Ester. A musa contou-lhe que ela era invejada por toda a extensão daquele mundo, que todas as outras musas queriam ser especiais para ele como ela era. Esta musa também lhe confessou que a compreendia, a invejava e de certa forma também a odiava, afinal, todas queriam ser amadas como Ester e ela não sabia valorizar isso.

Como as outras musas, Ester também queria ser única, mas para ela, simples palavras não eram suficientes, ela precisava de gestos e de provas. O escritor, no entanto só possuia as palavras e naquele mundo , onde tudo era abstrato, não havia nada concreto como o que Ester desejava.

Depois do contato com a outra musa, Ester percebeu que ele escolheria qualquer uma das outras para viver ao seu lado, porque era mais fácil. Um pequeno gesto e elas sentiriam-se gratas. Ele almejava esta gratidão que Ester jamais manifestaria.

Foi então que Ester resolveu partir. Ela estava presa pelo amor profundo, intenso que a unia ao seu criador. Ela apenas poderia sair de lá se ele a expulsasse, então ela provocou sua ira, sua raiva e ele a expulsou. Manou-a às favas como costumava fazer com quem lhe perturbava. Ela guardou em seu coração cada uma das palavras duras e grosseiras que ele proferiu e se ela conseguisse tranformar aquelas palvras em mágoa, certamente ela não mais voltaria.

A musa que esteve com Ester respirou aliviada ao saber da notícia. Ela sabia que era com muita dor que Ester partia, ela compreenendia seu sofrimento e sentia um sabor acre na boca, mas não pôde evitar um certo sentimento de felicidade. Era menos uma, afinal de contas.

No mundo concreto que sempre desejara, Ester conheceu o sofrimento e presenciou coisas terriveis com as quais jamais sonhara.Mas ela ainda assim sentia-se feliz por estar escrevendo a sua própria história. Foi neste mundo que ela conheceu um amor diferente, que não tinha um mundo para lhe oferecer, que não era tão belo nem tão inabalável, mas ela podia ter a certeza que era real. Neste amor ela sabia-se única. Sabia também que não seria tão enaltecida e que a própria relação não teria ares de perfeição. Mas isso tudo lhe parecia fascinante e , no fundo Ester sabia que apenas assim poderia conhecer a verdadeira, e tão sonhada, felicidade.

Se o grito preso pode tornar-se arte...




Não sou de guardar rancores e este é um grande defeito meu...
Escrevi com letras garrafais e colei por toda a parte asgrosserias que tu me disseste
Tudo isso apenas porque eu não sou de guardar rancores
E porque este é um grande defeito meu.

Roubaste meu pensamento,
Tu me diras que eu é que te ofereci, eu sei
Mas eu apenas quiz que tu os conhecesse,
Não que tu os fizesse teus.

Roubaste o meu amor,
Tu me dirias que não foi culpa tua, talvez
Mas se fosse apenas meu amor que tu tivesses roubado
Eu poderia até acreditar.

Roubaste meu orgulho,
Tu me dirias que eu é que roubei o teu, mentira
Mas tu ainda esperas que eu volte atrás
Como sempre fiz e faço.

Roubaste a minha esperança,
Tu me dirias que estou exagerando, verdade
Mas tu sabes como ninguem que exagerar a dor, o amor, a raiva, o medo..
Rende grandes poemas.

Não escrevo isto para que tu leias.
Escrevo porque é minha essencia e não copio nada de ninguém.
Escrevo para sempre lembrar das coisas que tu me roubaste e não tens planos de devolver.
Escrevo porque não sou de guardar rancores e este...
Este é um grande defeito meu.

1.12.05

A descoberta

Olhou para um lado, depois para o outro. Viu uma multidão e sentiu-se sozinho. A velha e conhecida sensação: solidão. Não fora ela que esteve presente durante toda a sua infância, a adoelescência e não é ela que o espera na velhice? Terceira Idade.

Não, não poderia deixar que a melancolia dominasse mais um dia de sua vida. Seria muito. Seria Abusivo. Tentou então uma aproximação comum. Cotidiana, simples e talvez por isso mesmo, ignorada.

Então funciona? O óleo invisibilizador funciona! Foi provado. Ninguém mais o responde, ninguém mais o percebe, então... Simples, não está sendo visto! Tão óbvio e este tempo todo não havia percebido.

Imagine que coisa maravilhosa. Um produto capaz de fazer qualquer indivíduo deixar de ser notado, qualquer pessoa deixar de ser vista. Pensou que poderia vender a fórmula a uma grande indústria de... Cosméticos? Remédios? Não importa! De qualquer forma tornar-se-ia rico. Rico não, milionário... Melhor ainda! Venderia a fórmula aos terroristas, eles sim sabem como fazer um bom negócio. Eles sim saberiam como usar o produto da forma mais adequada: a destruição completa da humanidade! Porque não? Parece tão apropriado... E não seria nenhum crime, seria piedade. Apenas aproximaria esta massa chamada humanidade do seu terrível, porém inevitável... fim.

Repentinamente teve um lapso. Uma pequena fagulha incendiou seu pensamento. Ele não... Ele não lembrava da fóprmula. Como poderia ter esquecido? Estava ali, era evidente: funcionava! Pegou lápis, papel e calculadora. Refez todos os cáluculos. Precisou de uma tabela periódica. Continuou a calcular. Era possível, ele sabia, ele provara... Passaria o resto de sua vida invisível tentando reencontrar a fórmula, depois fiaria rico. Rico não, milionário e compraria tudo o que quisesse. Mas... Não, não poderia vender a fpormula aos terroristas, eles acabariam com a humanidade e então não faria sentido algum ser milionário. Melhor seria se vendesse a fórmula para os Americanos. Depois pensou... De certo modo ele mesmo também era americano. E se fosse um laboratório? Sim, um grande laboratório... É mais seguro, mais prático e eleainda ficaria com a patente.

Logo alguém aproximou-se dele. E com um sorriso nos lábios disse a antiga frase: "Oi, tudo bem?". "Tudo", foi o que pôde responder. A pessoa saiu, ele ficou, e chorou. Estava tudo acabado, mas não chorou por isso... Acostumou-se a imaginar, montar e desmontar pensamentos, raciocínios, ilusões. Isso tudo já lhe era habitual. Chorou porque mentiu. E naquele momento mentiu para a única pessoa a quem prometera não mais mentir.