26.9.05

uma canção e uma saudade

Anos dourados (composição: Tom Jobim/Chico Buarque)

Parece que dizes
Te amo, Maria
Na fotografia
Estamos felizes
Te ligo afobada
E deixo confissões
No gravador
Vai ser engraçado
Se tens um novo amor
Me vejo a teu lado
Te amo?Não lembro
Parece dezembro
De um ano dourado
Parece bolero
Te quero, te quero
Dizer que não quero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais
Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
Te ligo ofegante
E digo confusões no gravador
E desconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero, nossos versos são banais
Mas como eu espero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais

25.9.05

Amor

A vida seguia seu curso normalmente. Um dia após o outro, mais nada. Foi então que em um passeio no parque ela viu aquele que certamente seria o homem de sua vida. Foi amor à primeira, à segunda, à terceira, à milionésima vista. Ela amou o modo engraçado como ele caminhava, a forma como o vento bagunçava o seu cabelo, o seu olhar expressivo e principalmete as covinhas que se formavam em seu rosto quando ele sorria.
Não resistiu e fotografou-o inúmeras vezes. Esta foi a forma que encontrou de levar um pouco dele para casa. No seu quarto ficou estudando os contornos do rosto dele e comparando com os seus. De acordo com os cálculos que fizera, a proporção entre os seus narizes e suas bocas era capaz de propiciar um beijo perfeito, do tipo que merece ser repetido pelo resto da vida.
À noite, antes de dormir era nele que ela pensava. Buscava o sono rápido, assim logo chegaria o outro dia e com ele, quem sabe uma nova oportunidade de estar com seu amor. Nasceu um dia lindo e ela acreditou que o sol brilhava só para ela. Foi cedo para o parque, queria ter a certeza de que não chegaria depois dele. Escolheu logo um lugar de onde poderia ver todos que por ali passassem. Sentou e esperou, esperou, esperou, mas ele não apareceu.
Pensou muito e acabou por concluir que ele deveria ir ao parque apenas nos domingos, mas como faltava muito ainda para o proximo final de semana, resolveu que ainda assim iria ao parque todos os dias, para que não restasse nenhuma dúvida.
Durante a semana imaginou o que ela diria a ele no momento do reencontro. Nada do que ela planejava falar pareicia bom o suficiente, mas ele responderia tudo doce e generosamente e isso seria capaz de espantar qualquer medo.
Chegou o domingo, ela passou o dia todo no parque. Ele não veio. O dia inteiro ela passou acompanhando o movimento do sol e alimentando a esperança de que em algum momento, quando ela menos esperasse, ele apareceria. Ela sabia que ele fora predestinado a ela e não cansaria de perseguir o destino que era deles. Não estava apaixonada. Ela o amava, mais que tudo. Morreria por ele.
Veio a noite e com ela o horário em que fechavam o parque. Ela sempre gostou da noite, sentia-se protegida abraçada pela escuridão. Mas naquele momento os braços da escuridão estavam demasiadamente pesados e a abraçavam muito fortemente, sufocando-a, tirando -lhe a vida aos poucos. Quando por fim chegou em casaencolheu-se num canto segurando os próprios joelhos com as mãos, e lá ficou, balançando o corpo para frente e para trás. Por fim adormeceu.
Na manhâ seguinte todos os seus músculos doíam. Chovia muito e ela ficou por horas apenas olhando a goteira que pingava no chão da sala. Pegou mais uma vez as fotos. Observou uma a uma minuciosamente. Foi então que viu um pequeno detalhe na mochila dele. Não pode ver ao certo, mas percebeu que ali havia algo escrito. Correu para a gaveta onde guardava uma antiga lupa. Com ela em mãos conseguiu ler: " Direito - USP". A felicidade voltou a morar em seu rosto. Ela tinha uma nova pista, o destino estava sendo grato a ela, finalmente.
Teve uma idéia e em segundos já estava em frente ao computador. Encontrou-o no orkut. Não cabia em si de tanta alegria. As pessoas constumam entrar nas comunidades dos seus cursos e ela o reconheceu pela foto facilmente. Ricardo era o seu nome. "Ricardo, meu amor!", repetia. Deixou-lhe um recado. Precisou apagar muitas vezes e escrever de formas diferentes, mas por fim optou por algo que julgou profundo: " Ricardo, sinto que nos conhecemos em vidas passadas. Não sei se você acredita em almas gêmeas, mas certamente você é a minha". Agora ela esperaria a resposta dele e depois eles conversariam muito e logo se encontrariam e ele olharia no fundo dos olhos dela e a presentearia com um beijo perfeito, e assim a sua vida estaria completa.
Três semanas se passaram. Ela deixou muitos outros recados a ele, mas ele não respondeu nenhum.
Desde que soubera que ele estudava na USP, habituou-se a passar por lá, vez ou outra. Espiava os horários em que ele saía, em que ele entrava. Chegou até a deixar alguns bilhetinhos para ele no vidro do seu carro. Nos dias em que a poeira acumulava-se nos vidros ela desenhava corações. Quando ele fosse pegar os seu carro ele veria as declarações de amor que ela deixava esaberia que ela não esquecia dele nunca.
Procurou o número dele na lista telefônica e costumava ligar. Não tinha coragem suficiente para puxar um assunto, então desligava assim que ele atendia.
Amou-o profundamente e a cada dia mais e mais. Amou-o com veneração e a ponto de compreender as suas recusas, as suas omissões. O tempo passava e ela já tinha feito quase tudo para chamar a atenção dele. Mas ela já amava-o tanto, já tinha mergulhado tão profundamente neste sentimento que se perdeu em tanto amor.
No dia seguinte levantou muito calma e feliz, banhou-se, perfumou-se. O céu cinzento fez com que ela escolhesse um vestido branco, muito leve.
Dirigiu-se até a universidade ( a dele) e esperou até o horario da saída. Espiou , de longe qunado ele entrou no carro e viu mais uma vez ele pegar velocidade enquanto fazia o retorno. Ela sabia que esta era uma das táticas que ele usava para tentar fugir do trânsito.
Quando ele passou por ela com o carro ela jogou-se contra ele que imediatamente desceu do carro. O sangeu manchou de vermelho o vestido muito branco. Ele ajoelhou-se e olhou profundamente nos olhos dela. Ela ainda teve forças para pedir-lhe um beijo que ele não pode negar. Abaixou-se um pouco mais e deixou que os seus lábios se tocassem. Ela derramou uma única lágrima. Tinha enfim o seu presente. Sua vida estava completa.

15.9.05

Anestésico

_ Não é incrivel como a internet é capaz de aproximar as pessoas? Você vive no seu mundinho e pensa que só você é assim e por isso fica se achando a pessoa mais estranha do mundo... Então um dia você entra na rede e descolbre que no mundo exite muita gente que se sente exatamente como você.. Você descobre que na verdade nunca esteve sozinho...
_Não... Com o passar do tempo você descobre que a internet não é capaz de diminuir a solidão, que nenhum artifício é capaz de fazer com que o vazio se torne menor, e que nada substitui um olhar, um toque, um abraço, um sorriso...
_ Mas então o que você fica fazendo tanto tempo conectado?
_ Eu fico me anestesiando.

(...)



Ela pede mais. Ela sempre quer mais. Aceitaria qualquer coisa que lhe prometessem que poderia fazê-la esquecer. Esquecer de si mesma, e dos amores antigos, aqueles que ela perdeu por não amar.
Uma outra dose. Será a ultima, promete. Desta vez tem que ser a ultima.
Tudo o que ela queria era poder não sentir. Mesmo que a escolha por não sentir dor faça com que ela também não conheça o prazer. Aceitaria todos os entorpecentes, todos os anestésicos.. Tudo.
Cansada do torpe solitário, ela sai a procura de um alguém, um qualquer alguém que possa fazer com que o vazio pareça menor. Então ela dança. Lúbrica: envenena ao primeiro olhar. Logo já está nos braços do estranho dos olhos claros (ou seria efeito da luz?). E ela se faz dele, impudentemente... Num amor suicida, consagra seu corpo àquele alguém sem nome.
E por um instante ela tem tudo. Para no minuto seguinte não ter mais nada. A noite não poderia durar para todo o sempre. O que é bom dura pouco, não é isso que costuma-se dizer? E aquela noite, lasciva, voluptuosa, de alguma forma completa, acabou tão logo!
Ela ainda pode sentir o toque, a boca ávida que sugava seu corpo.
Vai começar mais um dia. Ainda mais vazio que o anterior.. Perto do meio dia irá reler as cartas daqueles amores perdidos. Vai querer saber o que se passa agora na vida de cada um deles... E quando sair às ruas, estará procurando um olhar que corresponda ao seu.
Chegará mais uma noite.. E ela se comportará de forma ainda mais frívola. E ao fim da noite, irá nascer outro dia.
Mas à luz do dia tudo costuma ficar bem mais difícil... É preciso levantar e encarar o espelho. E se possível, ainda reconhecer-se nele.

10.9.05

Redoma de Vidro

Não poderia deixar de colocar este testinho aqui.. Eu sei que todo mundo já viu.. Mas penso que ele é o início de tudo.



A noite estava quieta, nenhum rumor na rua deserta, mas alguma coisa iria acontecer... Dentro de mim algo explodia.... Eu não Sabia o quê, mas eu sabia...
E de repente, me veio novamente aquela sensação...E como das outras vezes, eu me sentia inebriada, fascinada e inexplicavelmente feliz.
Era ela, eu sabia... Eu podia sentir sua presença.. Era uma oportunidade única, e eu não iria perdê-la. Não, eu não poderia perdê-la mais uma vez.
A primeira vez foi acidente, eu ainda me lembro bem, eu tinha então dez anos de idade. O carro, o farol, a bicicleta e o sangue. A Segunda vez, aos vinte anos, foi intencional. O vidro, os pulsos, o sangue. O pior foi acordar no outro dia.... O pior é sempre Ter que acordar.
Mas desta vez seria diferente, esta, certamente seria a última vez....Foram precisos mais dez anos, e agora eu já sabia tudo que precisava saber...Dez, vinte, trinta anos....Agora sim era a hora certa.
Eu sempre vivi nesta redoma de vidro. Apesar da luz, apesar da multidão, eu sempre estive sozinha. Vejo coisas que mais ninguém vê.. Sinto coisas que mais ninguém sente... E para não me machucar é que vivo nesta redoma. Eu não pedi para nascer, também não queria Ter nascido. Este mundo não é o "meu mundo".
Ah, e agora sinto você tão perto, tão perto como nunca senti. Eu não vou deixar você fugir, não vou deixar você passar novamente por mim.
Sim, morrer é uma arte, e nisso eu sou excepcional.
A válvula, o gás. Estou pronta... Venha a morte em vida porque morta estou... vem, toma-me em teus braços, e liberta-me.

8.9.05

Tempo


Era uma vez...
Eu.. Preciso de um tempo.
Naquele tempo...
Eu pensei que isso tudo já fizesse parte do passado.
Persegue-me em cada história.
Mas está aqui!
Está mais vivo do que nunca.
Agora!
Persegue-me também na vida.
Outro dia, pode ser?
Será um ciclo?
Hoje.
Como a lua.
Por que remexer nisso tudo?
Como o fluxo sangüíneo e constante...
Por que tentar reviver o que passou?
A mulher?
Eu sempre me preocupei tanto com o futuro...
O primeiro relógio a acompanhar a morte da lua.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac...
Hora, minuto, segundo
Não realizei nenhum dos meus planos.
Contar, contar, contar, contar, contar, contar..
Nem o meu rosto não é como eu pensei que seria.
Sempre a mesma medida: ininterrupta.
E se eu pudesse..
Enganar.
Máscara nenhuma fará com que tudo volte a ser como era.
Se o prazer pudesse ser a única medida.
Permanece o grito preso.
Se fosse possível deixar-se levar pela simples fantasia.
A teimosa angustia.
Recriar...
Qual o sentido?
A eternidade.


Estive Pensando


Eu também queria ter ido embora pra Pasárgada...
Agora estou tentando, mais uma vez, me agarrar à unica coisa que sei que sempre estará presente: o meu pensamento. Talvez assim, eu possa recriar o antigo hábito: o de não deixar que idéia nenhuma escape.
Só não poso fazer nenhuma promessa. Porque as palavras, se não capturadas na hora certa, fogem muito rápido e nós as perdemos antes mesmo de poder olhá-las mais de perto.