A vida seguia seu curso normalmente. Um dia após o outro, mais nada. Foi então que em um passeio no parque ela viu aquele que certamente seria o homem de sua vida. Foi amor à primeira, à segunda, à terceira, à milionésima vista. Ela amou o modo engraçado como ele caminhava, a forma como o vento bagunçava o seu cabelo, o seu olhar expressivo e principalmete as covinhas que se formavam em seu rosto quando ele sorria.
Não resistiu e fotografou-o inúmeras vezes. Esta foi a forma que encontrou de levar um pouco dele para casa. No seu quarto ficou estudando os contornos do rosto dele e comparando com os seus. De acordo com os cálculos que fizera, a proporção entre os seus narizes e suas bocas era capaz de propiciar um beijo perfeito, do tipo que merece ser repetido pelo resto da vida.
À noite, antes de dormir era nele que ela pensava. Buscava o sono rápido, assim logo chegaria o outro dia e com ele, quem sabe uma nova oportunidade de estar com seu amor. Nasceu um dia lindo e ela acreditou que o sol brilhava só para ela. Foi cedo para o parque, queria ter a certeza de que não chegaria depois dele. Escolheu logo um lugar de onde poderia ver todos que por ali passassem. Sentou e esperou, esperou, esperou, mas ele não apareceu.
Pensou muito e acabou por concluir que ele deveria ir ao parque apenas nos domingos, mas como faltava muito ainda para o proximo final de semana, resolveu que ainda assim iria ao parque todos os dias, para que não restasse nenhuma dúvida.
Durante a semana imaginou o que ela diria a ele no momento do reencontro. Nada do que ela planejava falar pareicia bom o suficiente, mas ele responderia tudo doce e generosamente e isso seria capaz de espantar qualquer medo.
Chegou o domingo, ela passou o dia todo no parque. Ele não veio. O dia inteiro ela passou acompanhando o movimento do sol e alimentando a esperança de que em algum momento, quando ela menos esperasse, ele apareceria. Ela sabia que ele fora predestinado a ela e não cansaria de perseguir o destino que era deles. Não estava apaixonada. Ela o amava, mais que tudo. Morreria por ele.
Veio a noite e com ela o horário em que fechavam o parque. Ela sempre gostou da noite, sentia-se protegida abraçada pela escuridão. Mas naquele momento os braços da escuridão estavam demasiadamente pesados e a abraçavam muito fortemente, sufocando-a, tirando -lhe a vida aos poucos. Quando por fim chegou em casaencolheu-se num canto segurando os próprios joelhos com as mãos, e lá ficou, balançando o corpo para frente e para trás. Por fim adormeceu.
Na manhâ seguinte todos os seus músculos doíam. Chovia muito e ela ficou por horas apenas olhando a goteira que pingava no chão da sala. Pegou mais uma vez as fotos. Observou uma a uma minuciosamente. Foi então que viu um pequeno detalhe na mochila dele. Não pode ver ao certo, mas percebeu que ali havia algo escrito. Correu para a gaveta onde guardava uma antiga lupa. Com ela em mãos conseguiu ler: " Direito - USP". A felicidade voltou a morar em seu rosto. Ela tinha uma nova pista, o destino estava sendo grato a ela, finalmente.
Teve uma idéia e em segundos já estava em frente ao computador. Encontrou-o no orkut. Não cabia em si de tanta alegria. As pessoas constumam entrar nas comunidades dos seus cursos e ela o reconheceu pela foto facilmente. Ricardo era o seu nome. "Ricardo, meu amor!", repetia. Deixou-lhe um recado. Precisou apagar muitas vezes e escrever de formas diferentes, mas por fim optou por algo que julgou profundo: " Ricardo, sinto que nos conhecemos em vidas passadas. Não sei se você acredita em almas gêmeas, mas certamente você é a minha". Agora ela esperaria a resposta dele e depois eles conversariam muito e logo se encontrariam e ele olharia no fundo dos olhos dela e a presentearia com um beijo perfeito, e assim a sua vida estaria completa.
Três semanas se passaram. Ela deixou muitos outros recados a ele, mas ele não respondeu nenhum.
Desde que soubera que ele estudava na USP, habituou-se a passar por lá, vez ou outra. Espiava os horários em que ele saía, em que ele entrava. Chegou até a deixar alguns bilhetinhos para ele no vidro do seu carro. Nos dias em que a poeira acumulava-se nos vidros ela desenhava corações. Quando ele fosse pegar os seu carro ele veria as declarações de amor que ela deixava esaberia que ela não esquecia dele nunca.
Procurou o número dele na lista telefônica e costumava ligar. Não tinha coragem suficiente para puxar um assunto, então desligava assim que ele atendia.
Amou-o profundamente e a cada dia mais e mais. Amou-o com veneração e a ponto de compreender as suas recusas, as suas omissões. O tempo passava e ela já tinha feito quase tudo para chamar a atenção dele. Mas ela já amava-o tanto, já tinha mergulhado tão profundamente neste sentimento que se perdeu em tanto amor.
No dia seguinte levantou muito calma e feliz, banhou-se, perfumou-se. O céu cinzento fez com que ela escolhesse um vestido branco, muito leve.
Dirigiu-se até a universidade ( a dele) e esperou até o horario da saída. Espiou , de longe qunado ele entrou no carro e viu mais uma vez ele pegar velocidade enquanto fazia o retorno. Ela sabia que esta era uma das táticas que ele usava para tentar fugir do trânsito.
Quando ele passou por ela com o carro ela jogou-se contra ele que imediatamente desceu do carro. O sangeu manchou de vermelho o vestido muito branco. Ele ajoelhou-se e olhou profundamente nos olhos dela. Ela ainda teve forças para pedir-lhe um beijo que ele não pode negar. Abaixou-se um pouco mais e deixou que os seus lábios se tocassem. Ela derramou uma única lágrima. Tinha enfim o seu presente. Sua vida estava completa.

1 Comment:
Sobre "Amor":
Não há muito o que dizer sobre este texto. Apenas penso que o amor pode ser destrutivo. Escrevi pensando nas ilusões que criamos, nas espectativas, na loucura que envolve as paixões. A história nasceu e eu a libertei dias depois, escrevendo-a, entregando-a.
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