Não poderia deixar de colocar este testinho aqui.. Eu sei que todo mundo já viu.. Mas penso que ele é o início de tudo.
A noite estava quieta, nenhum rumor na rua deserta, mas alguma coisa iria acontecer... Dentro de mim algo explodia.... Eu não Sabia o quê, mas eu sabia...
E de repente, me veio novamente aquela sensação...E como das outras vezes, eu me sentia inebriada, fascinada e inexplicavelmente feliz.
Era ela, eu sabia... Eu podia sentir sua presença.. Era uma oportunidade única, e eu não iria perdê-la. Não, eu não poderia perdê-la mais uma vez.
A primeira vez foi acidente, eu ainda me lembro bem, eu tinha então dez anos de idade. O carro, o farol, a bicicleta e o sangue. A Segunda vez, aos vinte anos, foi intencional. O vidro, os pulsos, o sangue. O pior foi acordar no outro dia.... O pior é sempre Ter que acordar.
Mas desta vez seria diferente, esta, certamente seria a última vez....Foram precisos mais dez anos, e agora eu já sabia tudo que precisava saber...Dez, vinte, trinta anos....Agora sim era a hora certa.
Eu sempre vivi nesta redoma de vidro. Apesar da luz, apesar da multidão, eu sempre estive sozinha. Vejo coisas que mais ninguém vê.. Sinto coisas que mais ninguém sente... E para não me machucar é que vivo nesta redoma. Eu não pedi para nascer, também não queria Ter nascido. Este mundo não é o "meu mundo".
Ah, e agora sinto você tão perto, tão perto como nunca senti. Eu não vou deixar você fugir, não vou deixar você passar novamente por mim.
Sim, morrer é uma arte, e nisso eu sou excepcional.
A válvula, o gás. Estou pronta... Venha a morte em vida porque morta estou... vem, toma-me em teus braços, e liberta-me.
10.9.05
Redoma de Vidro
Posted by Fernanda at 6:43 PM
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1 Comment:
"Redoma de vidro" é um texto muito especial para mim. Porque foi o primeiro texto em que eu resolvi contar uma história a outras pessoas. Li durante as férias, num jornal, a notícia da morte de uma escritora. Era uma mulher de 30 anos, com três filhos e casada com um ator. Ela tinha tentado suicídio duas vezes e na terceira conseguiu.
Morreu asfixiada com o gás de cozinha e cuidou para não arrancar a vida dos filhos, fechou todas as janelas e portas da cozinha, tomando os cuidados para que o gás não escapasse. Marcou um encontro com uma amiga de confiança na sua casa, e assim soube que logo chegaria alguém para tirar as crianças do prédio.
Esta história ficou na minha cabeça e alguns meses depois escrevi o texto, sob a ótica da suicida. Cortei umas coisas, inventei outras. A redoma de vidro não se refere apenas ao estado de espírito da personagem, é o próprio esquema de isolamento de gás que ela formulou (mesmo que isso não esteja escrito no texto).
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