28.1.06

Brincando de Amarelinha (5)

_ Do que é que tu fugia naquele dia, mulé?
_ Que dia, véio?
_ Naquele dia que nóis se conhecemu.
_ Ah, véio, isso já faiz uns cinquenta ano, tu qué que eu me lembre de que jeito? Nem lembro mais como foi que eu te conheci.
_ É claro que tu lembra... Tu num ia esquecê.
_ Mais esqueci. Num lembro mais de nada. Num dizem que quando nóis fica véio, os miolo cumeço a pifá e nóis começa a esquecê di tudo? Então?
_ Pára com isso mulé! Tu tá muito da lembrada que eu sei! Desimbuxa duma veiz!
_ Eu tava é fugindo da vidinha besta que eu levava. Era disso que eu fugia naquele dia.
_ Num me amola com essas história tua! Ninguém corre de vida besta! Ninguém pede ajuda e abrigo porque acha que a vida num tá das mior! Tinha arguém correndo atrás de tu naquele dia! Quem era? (ele a sacode com violência)
_ Era meu tio! Pronto, falei! Me solta! Me solta, anda! Tá me machucando!
_ E por que que tu fugia dele?
_ Porque ele me queria. Porque ele morava na minha casa desde quando largou a mulé e sempre me perseguia, me pegava nos canto. E eu num queria. Minha mãe fazia vista grossa, dizia que era minha curpa, meu pai nem sei se sabia. Só que eu num queria mais aquilo! E corri tudo que minhas perna pudia pra sumí de lá de uma veiz e dexá aquela vida. Naquela noite tu me disse que eu num precisava me explicá e eu num expliquei. Achei até bonito tu num querê sabê de nada. Mais agora tu num é mais aquele menino que num qué se metê, agora tu qué é sabê tudo as coisa que numa vida intera tu num foi capaz de descubri. Mas num te sobra tanto tempo assim, não , véio. Eu possu tá véia, eu posso num durá muito mais nessa vida desgraçada.. Mais num é diferente contigo.

(Ele não gosta de ouvir o que ela diz, mas compreende que são verdades. Saber daquilo fez com que ele sentisse alguma piedade pela mulher com quem dividira a sua vida inteira.)
(...)
_ Por que foi que tu nunca me contô?

_ Num contei porque o encanto que fazia tu diferente dos otro ômi desse mundo era isso de tu num precisá sabê di um nada. Tu tava ali, do meu lado e fazia de um tudo pra me vê feliz e nem se importava com os meu segredo... Num importava o que num tava ali naquela hora com nóis e isso era o que eu achava de mais bonito no nosso amor.
_ Então é isso? Tu contô uma das coisa que eu num sabia e o amor que tu tinha por mim
acabô? Daqui pra frente, mais nada?
_ Amor que é amor num acaba nunca, ou pelo menos foi isso que eu pensei essa vida intera. Nóis tamo é véio de mais pra pensar no que vai sê daqui pra frente. Dispois de tanto tempo, cum tanta ruga no corpo, nesse fim de mundo, num resta muita coisa a num sê lembrá do passado e essa é a pior coisa que pode acuntecê... Tem coisa que eu num queria lembrá, mais que num sai daqui de dentro da minha cabeça. Eu só sei que os dia vão passando, vão passando e eu num descubro como é que faiz pra tê uma vida mior do que essa dispois que tudo acabá.
_ Qué sabê, mulé? Eu penso é que nem tem otra vida, nada dispois. Só essa disgraça que nóis já conhece.
_ Mior até se num tivê mais nada. Assim pelo menos eu posso esquecê.

1 Comment:

Anonymous said...

Ando cada vez mais curiosa : Fe, quando é que você vai apresentar esta história na íntegra ? ou você vai deixar a bichinha assim, com uma notinha parada no ar, pra gente ficar em suspense ?

pode ser uma. Mas que eu gostaria de ver como acaba, ah, gostaria sim, pois está bonito, com cara de Brasil - uma cara que está mudando, mas se mantém em muitos lugares

Você captou bem isso tudo

Vai deixar no ar ou vai dar prosseguimento mulher ?
bjs mis
Thia Sin